Meigo, carinhoso. Mas independente e peralta. Enfim, um cão "de personalidade", que fascina adultos e crianças e já virou até personagem de história em quadrinhos.
Bastante sapeca, muito bem humorado e tão independente que muitas vezes deixa o seu dono, o Charlie Brown, "falando sozinho". Mas, acima de tudo, ele é meigo, carinhoso e companheirão para todas as horas. Assim é o Snoopy, o mais típico e famoso cão da raça Beagle.
Enganam-se, porém, aqueles que acham que essa forte personalidade do Snoopy é puro fruto da imaginação do seu criador, o desenhista Charles Schulz, um felizardo dono de beagles ( de carne e osso ) desde a sua infância.
Na verdade esses pequenos cães, que também foram muito apreciados pelos cavaleiros da Távola Redonda e pelo próprio rei Arthur, são dotados de um temperamento tão forte e notável que dificilmente não apaixonam à primeira vista crianças e adultos.
Há vários estudos que constatam que essa raça, largamente utilizada em caçadas, graças ao seu apurado faro, é uma das mais antigas da história da cinofilia.
No ensaio "Cynegeticos", escrito por Xenofone por volta do ano 350 a.c., há registros de que boa parte dos caçadores gregos usava em seu trabalho pequenos cães, com orelhas pendentes, pêlo curto e cauda em foice, semelhantes demais com os Beagle de hoje.
Saídos da Grécia para Roma, depois Ilhas Britânicas e França, os Beagles foram ganhando tanto a preferência popular quanto a da nobreza.
Alguns membros da família real britânica, como os Reis Eduardo II ( séc. XIV ) e James I ( séc. XVI ), notoriamente conhecidos pela grande afeição e interesse que nutriam por seus cães, foram proprietários de matilhas de Beagles. A proprietária Rainha Elizabeth I era fã ardorosa de cães de pequeno porte. Tanto que mantinha um bom número de "pocket beagles", um tipo dessa raça com dimensões bem inferiores às atuais. Charles II, monarca nascido em 1630, freqüentemente caçava lebres com esses cães corajosos e sempre à procura de boas pegadas. Até poucos séculos atrás, eram raros os caçadores do povo que partiam para suas empreitadas sem levar esses grandes farejadores de lebres, faisões, esquilos, em cestos presos às selas dos cavalos.
A origem do nome Beagle não é das mais claras. Alguns sugerem ( mas não há nada que prove ) que este tenha vindo de "bée-gueule", que significaria "escancarar a goela", alusão feita ao som emitido pelos cães dessa raça, considerado por muitos como harmonioso, que por sua vez também seria o responsável pelo termo "singing beagle" ( canção beagle ), a forma carinhosa como os ingleses os chamam.
Com a colonização dos Estados Unidos, alguns exemplares foram levados para lá iniciando-se, assim, a criação dos "antepassados do Snoopy" na terra dos Ianques.
INGLESES, AMERICANOS E ANÕES
Junto com a criação americana surgiu também uma polêmica que persiste até hoje: existiria dois tipo de Beagles, o americano e o inglês?
A resposta é não, segundo a maior parte dos estudiosos do assunto. De acordo com os experts, o que ocorre é que com o passar dos tempos os criadores americanos foram "refinando" seus exemplares para poderem utilizá-los em exposições caninas. Ao passo que os ingleses preferiram manter a "rusticidade" dos Beagles, justamente para que estes continuassem a desempenhar sua função primária de caçador. Assim sendo, a outra diferença maior entre cães desses dois paises é o tamanho: os exemplares americanos podem medir entre 33cm e 38cm, enquanto que os ingleses podem medir até 40cm.
Outra dúvida esclarecida é se realmente ainda existiria uma variedade de Beagle conhecida por "pocket beagle" ou "beagle anão" ou "beagle elizabetano". Segundo os criadores consultados, esse tipo de Beagle de dimensões minúsculas, que tanto sucesso fez nas cortes britânicas no período elizabetano, fruto dos cruzamentos de Beagles com cães de pequeno porte, não existe mais. Afirmam os criadores mais conceituados que se ainda hoje há no mercado essa variedade , ela certamente não é de raça pura e não passa de "produtos" elaborados por criadores inescrupulosos.
A CHEGADA NO BRASIL
Voltando aos verdadeiros Beagle, quando os primeiros exemplares desembarcaram no Brasil, trazidos pelos criadores cariocas Bento Soares Sampaio, a senhora Serrador e René Mustardero, já era início dos anos 60. Porém, nesse pouco tempo de criação brasileira, o plantel de beagle sempre ostentou um invejável nível de qualidade no campo da cinofilia nacional. Esse fato deve-se ao trabalho de seleção apurada desenvolvida pelos criadores da raça, que foram exigentes não só em relacão às aquisições feitas no exterior ( só no período de 76 a 80 foram importados cerca de 90 cães dos melhores canis do mundo ) como também nos criteriosos acasalamentos executados em seus canis.
Ainda na década de 60, não era costume os proprietários de Beagles os levarem às exposições de cães. Provavelmente por acreditarem que só as raças de pelagens exuberantes ou consagradas no Brasil tivessem chances de obter as melhores classificações. Contudo, por essa época, o sr. Arthur Luís P. Gerhard, acreditando ( acertadamente ) no sucesso dos Beagles nas pistas brasileiras, trouxe dos Estados Unidos ( tido até o momento como um dos melhores plantéis da raça ) uma fêmea, de nome Shane Goldpulver, que conquistou tantos prêmios nas exposições em que participou, que hoje é citada como a primeira Beagle a "defender" honrosamente sua raça nas pistas.
Sucesso em exposições; conquistando a cada dia novos admiradores, seja por seu temperamento encantador ou por ser um cão que não exige cuidados especiais; e sendo ainda utilizado em caçadas, hoje o Beagle, gerado e criado no Brasil, é uma das raças mais procuradas em todo o território nacional, sendo inclusive exportado para os países da América latina, Europa e até Estados Unidos.